O homem sobe ao palco. O foco acende e segue a sua movimentação. Não se ouve senão os ecos que os seus passos produzem no que ele não consegue ver. O cenário muda constantemente. Cada cenário ilustra três ópticas distintas de um dado momento na sua vida. A sua perspectiva do que fez, a dos que o rodeiam e o que ele fez realmente. Isso fá-lo pensar no que é. Senta-se a uma secretária e abre um reles bloco de notas.
Quando todos estão a vê-lo, não pode exteriorizar o que lhe vai na alma. Isso incomoda-o.
- Sou o que sou, não me devo preocupar com o que os outros pensam, escreve.
Que disparate!, reconhece. Assim seria impossível a vivência em sociedade. Arrancou a primeira folha, amachucou-a e deitou-a para longe de si. Recomeçou numa segunda. Lembrou um ideal que fica sempre bem:
- A minha liberdade acaba onde começa a dos outros.
E escreveu-o.
Recorda agora um momento recente em que engoliu o que ia dizer. Elogiou o outro com toda a amabilidade em vez de o insultar. Por dentro fervia, contudo não o revelou e ambas as partes saíram em benefício, repara ele.
- Diz só o que os outros gostam de ouvir, acrescentou.
Pensa no que ele é realmente. É na fracção de segundo entre a luz acesa e a luz apagada que ele é realmente. Ninguém, nem ele nem os que o rodeiam, nota esse tempo. Não interessa, portanto.
De súbito, a luz apaga-se. Ninguém mais o pode julgar. Está livre para se ver a ele próprio sem distorções. Vê-se reproduzido numa sequência de espelhos, em que cada um é uma reprodução do anterior, até ao infinito. Tal assusta-o. Sozinho não é ninguém. Precisa da aprovação dos outros. É isso que o mantém vivo. O homem é o que os outros fazem dele.
A luz regressa. Consegue ver toda a gente. Era neles que ecoavam os seus passos, os seus pensamentos. Todos sorriem. É apenas um actor, lá dentro e cá fora.
Conclui:
- Gosto de viver com a luz acesa.
Toca o órgão. Cai o pano.