segunda-feira, 2 de março de 2009

O espelho

O homem sobe ao palco. O foco acende e segue a sua movimentação. Não se ouve senão os ecos que os seus passos produzem no que ele não consegue ver. O cenário muda constantemente. Cada cenário ilustra três ópticas distintas de um dado momento na sua vida. A sua perspectiva do que fez, a dos que o rodeiam e o que ele fez realmente. Isso fá-lo pensar no que é. Senta-se a uma secretária e abre um reles bloco de notas.

Quando todos estão a vê-lo, não pode exteriorizar o que lhe vai na alma. Isso incomoda-o.

- Sou o que sou, não me devo preocupar com o que os outros pensam, escreve.

Que disparate!, reconhece. Assim seria impossível a vivência em sociedade. Arrancou a primeira folha, amachucou-a e deitou-a para longe de si. Recomeçou numa segunda. Lembrou um ideal que fica sempre bem:

- A minha liberdade acaba onde começa a dos outros.

E escreveu-o.

Recorda agora um momento recente em que engoliu o que ia dizer. Elogiou o outro com toda a amabilidade em vez de o insultar. Por dentro fervia, contudo não o revelou e ambas as partes saíram em benefício, repara ele.

- Diz só o que os outros gostam de ouvir, acrescentou.

Pensa no que ele é realmente. É na fracção de segundo entre a luz acesa e a luz apagada que ele é realmente. Ninguém, nem ele nem os que o rodeiam, nota esse tempo. Não interessa, portanto.

De súbito, a luz apaga-se. Ninguém mais o pode julgar. Está livre para se ver a ele próprio sem distorções. Vê-se reproduzido numa sequência de espelhos, em que cada um é uma reprodução do anterior, até ao infinito. Tal assusta-o. Sozinho não é ninguém. Precisa da aprovação dos outros. É isso que o mantém vivo. O homem é o que os outros fazem dele.

A luz regressa. Consegue ver toda a gente. Era neles que ecoavam os seus passos, os seus pensamentos. Todos sorriem. É apenas um actor, lá dentro e cá fora.

Conclui:

- Gosto de viver com a luz acesa.

Toca o órgão. Cai o pano.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vinil

Agora, sozinho e velho naquela casa também ela antiga, sentia o fim por perto. Olhava através da janela. A rua estava animada. Não eram perceptíveis os sons, apenas o movimento. Tudo era luz e felicidade. No interior, à meia-luz, tudo eram lembranças. Cada objecto estava cheio da sua época. Os retratos esbatidos e os livros gastos do uso anunciavam o passar dos anos e faziam-no velho.

A música era a única excepção. Remexeu a prateleira onde guardava os discos de vinil. Encontrou o que queria. Com dois sopros valentes, livrou o prato do gira-discos de toda aquela cama de pó e assentou o disco, pousando sobre ele o braço do aparelho. Ainda dava som. Queria ouvir aquela música de novo, era logo a primeira.

Toda aquela musicalidade lembrava-lhe o tempo de juventude. Recostou-se no cadeirão de pele acastanhada. Rejuvenescia ao escutá-la. Fechava os olhos sem se dar conta. Lembrava os momentos felizes desde o dia em que a conheceu. Carregava as imagens com todo o pormenor que a memória ainda lhe permitia. Sorria como naqueles tempos. O vinil era a memória. Voava de sítio em sítio, rindo com a memória. Estava lá e não cá.

Tudo corria aos seus olhos ao ritmo daquela música.
Tinha reencontrado a felicidade.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Uma formiga num ponteiro de relógio


Todo este tempo a viver numa obliquidade confortável, sem nunca ter pensado que chegariam as seis horas e que o ponteiro ficaria na vertical. O que haverá na outra metade? Será bom? Tomara que as horas passassem como minutos, ou até como segundos. Começa a escorregar um pouco. Lentamente o declive está a aumentar, a sombra que a luz faz com este ponteiro diminui. Está no que julga ser as quatro horas. O céu começa a tomar um tom cinzento-escuro. Não é comum para a época. Não chove. A formiga abriga-se temendo a morte. Receia o fim, mas renunciaria ao presente para saber mais rapidamente o que está para além das seis horas.

Fecha os olhos. Olha para a frente.

O tempo transporta-a. Carrega-a num dos seus braços à velocidade que ela sempre quis, é como se sentisse o vento contra os olhos, contudo nunca sai do mesmo sítio, sabe que é o tempo que passa por ela e não ela que passa por ele. Saberá? Cruza-se com o ponteiro dos minutos. O ponteiro das horas pára agora. Está totalmente na horizontal. Olha em volta. Talvez esteja desiludida. É tudo tão igual. Olha-se na superfície ligeiramente espelhada do fundo do relógio. Afinal nem tudo está inalterado. Ela mudou. De todo o universo que a rodeia, só ela está mudada. Está envelhecida. O tempo deixou a sua marca. Repara na quase instantaneidade da primeira metade. Pensa em tudo o que não fez. Reconhece agora que o futuro é apenas uma projecção do passado. Sente saudade do presente.

Olha para o agora. O sino do relógio soa. Uma, duas, três, quatro, cinco badaladas. Ainda são cinco horas.