segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vinil

Agora, sozinho e velho naquela casa também ela antiga, sentia o fim por perto. Olhava através da janela. A rua estava animada. Não eram perceptíveis os sons, apenas o movimento. Tudo era luz e felicidade. No interior, à meia-luz, tudo eram lembranças. Cada objecto estava cheio da sua época. Os retratos esbatidos e os livros gastos do uso anunciavam o passar dos anos e faziam-no velho.

A música era a única excepção. Remexeu a prateleira onde guardava os discos de vinil. Encontrou o que queria. Com dois sopros valentes, livrou o prato do gira-discos de toda aquela cama de pó e assentou o disco, pousando sobre ele o braço do aparelho. Ainda dava som. Queria ouvir aquela música de novo, era logo a primeira.

Toda aquela musicalidade lembrava-lhe o tempo de juventude. Recostou-se no cadeirão de pele acastanhada. Rejuvenescia ao escutá-la. Fechava os olhos sem se dar conta. Lembrava os momentos felizes desde o dia em que a conheceu. Carregava as imagens com todo o pormenor que a memória ainda lhe permitia. Sorria como naqueles tempos. O vinil era a memória. Voava de sítio em sítio, rindo com a memória. Estava lá e não cá.

Tudo corria aos seus olhos ao ritmo daquela música.
Tinha reencontrado a felicidade.

2 comentários:

Anónimo disse...

E porque as palavras por vezes não são suficientes...gostava de ouvir a música. Qual era?

Anónimo disse...

O vinil era a memória :)