Todo este tempo a viver numa obliquidade confortável, sem nunca ter pensado que chegariam as seis horas e que o ponteiro ficaria na vertical. O que haverá na outra metade? Será bom? Tomara que as horas passassem como minutos, ou até como segundos. Começa a escorregar um pouco. Lentamente o declive está a aumentar, a sombra que a luz faz com este ponteiro diminui. Está no que julga ser as quatro horas. O céu começa a tomar um tom cinzento-escuro. Não é comum para a época. Não chove. A formiga abriga-se temendo a morte. Receia o fim, mas renunciaria ao presente para saber mais rapidamente o que está para além das seis horas.
Fecha os olhos. Olha para a frente.
O tempo transporta-a. Carrega-a num dos seus braços à velocidade que ela sempre quis, é como se sentisse o vento contra os olhos, contudo nunca sai do mesmo sítio, sabe que é o tempo que passa por ela e não ela que passa por ele. Saberá? Cruza-se com o ponteiro dos minutos. O ponteiro das horas pára agora. Está totalmente na horizontal. Olha em volta. Talvez esteja desiludida. É tudo tão igual. Olha-se na superfície ligeiramente espelhada do fundo do relógio. Afinal nem tudo está inalterado. Ela mudou. De todo o universo que a rodeia, só ela está mudada. Está envelhecida. O tempo deixou a sua marca. Repara na quase instantaneidade da primeira metade. Pensa em tudo o que não fez. Reconhece agora que o futuro é apenas uma projecção do passado. Sente saudade do presente.
Olha para o agora. O sino do relógio soa. Uma, duas, três, quatro, cinco badaladas. Ainda são cinco horas.
2 comentários:
Devo parabenizar os participantes do blog uma vez que ambos os textos estão soberbos! Revelam uma enorme capacidade de escrita e construção de conhecimento, Parabéns.
Que aptidão espantosa para redigir.
Bem sabem que por mim ja tinham ganho o Nobel da Literatura.. Têm ideia do que vocês são? São um prodígio. (g. arte)
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